Fernández: a dignidade humana é inalienável. Não criminalizar a homossexualidade

Coletiva de imprensa de apresentação do documento "Dignitas Infinita" do Dicastério para a Doutrina da Fé - foto Vatican News

O prefeito da Doutrina da Fé apresentou o documento “Dignitas infinita” na Sala de Imprensa do Vaticano, um texto “fundamental” para nos lembrar que todos merecem respeito da sua dignidade. “O Papa nunca falará ex cathedra, nunca criará um dogma de fé ou uma declaração definitiva”, disse o cardeal. Sobre a Fiducia Supplicans: “O Papa ampliou o conceito de bênção. O documento recebeu cerca de 7 bilhões de visualizações”.

 

Por Salvatore Cernuzio – Cidade do Vaticano

O documento intitulado “Dignitas Infinita“, do Dicastério para a Doutrina da Fé, foi publicado nesta segunda-feira, 8 de abril, após cinco anos de trabalho, com o objetivo de relançar de maneira mais direta a impactante mensagem do cristianismo: “Deus ama a todos… com amor infinito”. Essas palavras foram proferidas por João Paulo II a um grupo de pessoas com deficiência que ele encontrou em Osnabrück, Alemanha, durante uma de suas numerosas viagens ao exterior em 1980. O cardeal Victor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério, falou durante a conferência na Sala de Imprensa do Vaticano. Esta foi a primeira vez que o cardeal participou de um evento público com jornalistas de todo o mundo.

Fiducia Supplicans, bilhões de visualizações e o consenso entre os jovens da Itália

Acompanhado pelo secretário para a Doutrina da Fé, monsenhor Armando Matteo, e pela professora Paola Scarcella, docente das Universidades Tor Vergata e Lumsa, em Roma, o cardeal – com respostas diretas a perguntas igualmente diretas, um tom às vezes irônico e também deixando espaço para anedotas pessoais, revelou os bastidores e os detalhes da elaboração desse texto de “alto valor doutrinário”.

Uma questão “certamente menos central, menos importante”, mas ainda assim “no coração” de Jorge Mario Bergoglio, que “desejou ampliar a compreensão das bênçãos fora do contexto litúrgico para desenvolver sua riqueza pastoral. O Papa tem o direito de fazer isso”, enfatizou Fernández, mencionando a Fiducia Supplicans no início de seu discurso para esclarecer algumas questões relacionadas ao texto do Vaticano que, de acordo com pesquisas externas, registrou “mais de 7 bilhões de visualizações na Internet (enquanto muitos documentos nem sequer lembramos o nome)” e obteve o consenso de mais de 75% dos italianos com menos de 35 anos. “A realidade é que até ontem eu não estava pensando em dizer nada… mas nestes dias, no Vaticano e fora dele, me disseram: não podemos agir como se nada tivesse acontecido, como se estivéssemos fugindo da realidade com toda a bagunça que está acontecendo. É por isso que ampliei minha intervenção”, esclareceu o cardeal argentino.

Descriminalização da homossexualidade

A questão da homossexualidade foi abordada várias vezes durante a coletiva de imprensa, não tanto em relação à Fiducia Supplicans, mas à Dignitas Infinita, que pede que se evite qualquer “discriminação injusta” ou “agressão e violência” contra pessoas homossexuais, denunciando “como contrário à dignidade humana” o fato de que em alguns países há pessoas que são presas, torturadas e mortas por causa de sua orientação sexual.

“Somos a favor da descriminalização! Não há dúvida sobre isso”, exclamou Fernández. Um ponto de vista já expresso por muitos bispos e que o prefeito da Doutrina da Fé defende novamente, denunciando a violência que ou é legalmente contemplada em alguns países ou é permitida “como se nada tivesse acontecido”. “Estamos diante de um grande problema” e de “um ataque aos direitos humanos”, disse Fernández, afirmando que ficou “consternado” ao ler comentários de católicos abençoando as leis contra os gays promulgadas pelo governo militar de um determinado país: “Quando li, quis morrer”.

O posicionamento do Catecismo

Àqueles que apontaram que talvez o Catecismo da Igreja Católica deveria ser modificado, pois considera os atos homossexuais “intrinsecamente desordenados” (algo que, na opinião de muitos, alimentaria a violência contra os gays), o chefe do dicastério respondeu que “intrinsecamente desordenado” é de fato “uma expressão forte… Precisa de muita explicação, talvez devêssemos encontrar uma expressão mais clara”. Com isso, no entanto, queremos reafirmar “a beleza do encontro entre homem e mulher que podem estar juntos e ter um relacionamento íntimo do qual nasce uma nova vida, e uma coisa não pode ser comparada com a outra. Os atos homossexuais têm uma característica que não pode, nem de longe, refletir essa beleza”. Na mesma perspectiva, o cardeal reiterou a rejeição da teoria de gênero porque ela “empobrece a visão humanista”: “Nesse contexto, a ideia do casamento gay ou da eliminação das diferenças não parece aceitável”.

Mudança de sexo, aborto, maternidade sub-rogada

O cardeal também respondeu a algumas perguntas sobre a questão da mudança de sexo, considerada uma “tendência a querer criar a realidade” que leva os seres humanos a se sentirem “onipotentes” e a pensar “que com sua inteligência e vontade são capazes de construir tudo como se não houvesse nada antes deles”. A “gravidade” da questão “se torna especial” quando se fala de crianças submetidas a tratamento cirúrgico ou hormonal: sua liberdade deve ser primeiro “esclarecida”. Sobre a questão do aborto, recentemente aprovado na França como um direito na Constituição, Fernández afirmou que “quando uma criança está crescendo no ventre da mãe, pode ser uma mulher se desenvolvendo”, portanto, é “o direito de uma mulher contra o direito de outra mulher”. Para a Igreja, o “direito principal é o direito original: o direito à vida”. Quanto à maternidade sub-rogada, afirmar que com tal prática “a criança se torna objeto de um desejo” não significa “não compreender a sensibilidade da pessoa que deseja um filho seu”, explicou o cardeal; mas há um convite “a transcender esse desejo, porque estamos falando da dignidade da pessoa que é maior” e “a desenvolver desejos em outra linha”, por exemplo, através da adoção.

Uma ferramenta oferecida pelos últimos Papas

Mais uma vez, Fernández fez-se portador da mensagem que está no centro do trabalho pastoral do Papa Francisco: acolher “todos, todos”, mesmo aqueles que “pensam de forma diferente em questões de sexualidade e casamento”. Não se trata apenas de uma “minoria seleta que aceita tudo o que a Igreja diz”. Ainda mais porque o documento apresentado, centrado em “um pilar fundamental do ensinamento cristão: a dignidade humana”, terá, espera-se, um impacto universal “porque o mundo precisa redescobrir as implicações da imensa dignidade da pessoa para não perder o rumo”. Dignitas infinita, acrescentou o cardeal argentino, embora enriquecida por 113 notas de rodapé que vão de Paulo VI a Francisco, não pretende ser “um vademecum” de coisas já ditas, mas uma ferramenta “para coletar e consolidar o que foi dito sobre o assunto pelos últimos Pontífices e para sintetizar as novidades oferecidas pelo atual Papa em uma questão estruturante do pensamento cristão clássico e contemporâneo”.

O Magistério de Francisco

Sobre o tema do magistério de Bergoglio, o prefeito Fernández aproveitou a oportunidade para esclarecer: “Algumas pessoas que adoravam o Papa anos atrás agora dizem que o Papa só deve ser ouvido quando fala ex cathedra. Ouçam, o Papa nunca falará ex cathedra, ele nunca vai querer criar um dogma de fé ou uma declaração definitiva. Tenho quase 100% de certeza. Acreditamos que, além do carisma da infalibilidade, o Papa tem a assistência do Espírito para guiar a Igreja e iluminá-la”. Os cardeais, bispos e padres “que tratam o Papa como herege, contra a tradição da Igreja”, traem o juramento de obediência ao Santo Padre de sua ordenação. E, novamente, se há aqueles que pensam que Francisco está dando muitos passos à frente, devemos nos lembrar”, disse o cardeal, “que em muitos casos na história um Papa disse algo diferente de seu antecessor. O exemplo mais recente é o da pena de morte, que Francisco queria abolir do Catecismo”.

Uma lembrança de Buenos Aires

Por fim, uma lembrança pessoal da época em Buenos Aires, quando o então dom Fernández foi nomeado reitor da Universidade Católica, ganhou espaço durante a coletiva: “Eu achava que todos estavam contra mim, tão ferozmente como se eu estivesse entre lobos, não porque me odiassem, mas porque eu havia mudado seus planos. Eu estava em um lugar onde incomodava seus propósitos… Nessas ocasiões, somos tentados a nos culpar, a nos punir, a desaparecer. Um dia daqueles, o arcebispo Bergoglio me disse com firmeza: “Não, Tucho, levante a cabeça e não deixe que tirem sua dignidade. Porque a sua dignidade ninguém pode tirar'”. E concluiu o cardeal: “Gostaria que esta mensagem fosse também para cada um de vocês”.

Fonte: Vatican News

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