Ter luz para ser luz

Tochas que ardem e brilham

 

Vós sois a luz do mundo (Mt 5,14). Mas, como podemos nós ser “luz” se não temos a luz de Deus? Sem a luz da Verdade conhecida e vivida, só podemos ser cegos que guiam outros cegos. E, se um cego conduz a outro cego, cairão ambos na mesma vala (Mt 15, 14). Falando de São João Batista, Jesus dizia que ele era uma tocha que ardia e brilhava ( ). Primeiro ardia, por dentro; brilhava porque fogo e a luz da sua alma irradiavam na sua conduta e nas suas palavras.

Estamos em condições de “irradiar” porque a verdade cristã está clara na nossa mente e se encarna na nossa conduta? Muitos não estão mesmo, e o pior é que não se dão conta do “desastre” que isso é para os filhos e, em geral, para os que devem formar.

Por que é que hoje, mais do que nunca, o nosso exemplo precisa ter umas raízes muito fortes de doutrina?

Em primeiro lugar, porque, hoje, a ignorância religiosa é generalizada, raia no mais vazio analfabetismo cristão, e é epidêmica e endêmica. A lado dessa ignorância, aceita com tranquilidade pela maioria dos católicos, as ideias, valores, critérios de vida e de conduta brutalmente anticristãos, demolidores das almas, são mais poderosos, envolventes do agressivos que nunca, em mais de vinte séculos de Cristianismo.

O rio poluído e a ponte

Creio que, nos nossos dias, é atualíssima a imagem do rio sujo e a ponte de que falava Santa Catarina de Sena, a moça que iluminou a Igreja no século XIV. No seu célebre livro O Diálogo, compara o mundo “dos mundanos” − dos que vivem afastados de Cristo, esse “mundo” materialista que hoje encontramos a cada centímetro quadrado −, a um rio poluído, uma espécie de esgoto corrosivo, que, no entanto, atrai fortemente. Os que vivem mergulhados nele chamam os outros, vociferando, esbaldando-se e cantando, e os arrastam a se atirarem também à água, deixando-se arrastar pela correnteza, como se nisso consistisse a alegria de viver. Todos acabam afogados na imundície, perdidos para sempre.

Só uma ponte permite evitar o esgoto, atravessar incólume o rio e salvar-se: Cristo, o “pontífice” (“fazedor de ponte”), o fazedor da única ponte que leva da terra para o céu: – Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim (Jo 14, 6).

Não aduzi essa imagem gratuitamente. Todos, mas especialmente a nossa juventude, estão caindo nesse “rio” letal com uma facilidade excessiva (egoísmo hedonista, desordem dos caprichos banais e do consumismo, droga, pornografia ao alcance da mão, sexo doentio, alcoolismo, agressividade, e até mesmo música satânica e retorno arrepiante a rituais pagãos …

Não podemos esquecer que, até faz apenas uns cinquenta ou sessenta anos, os valores cristãos iluminavam, com naturalidade, o pensamento dos católicos e das sociedades e culturas de maioria cristã. Grande parte das pessoas, evidentemente, não eram santas, mas tinham lá no fundo as ideias claras, sabiam o que as salvava e as perdia. A “cultura cristã” penetrava nelas como que por osmose e, ainda que ser um “cristão osmótico” não seja o ideal, isso oferecia-lhes, pelo menos, um salva-vidas nas horas de crise… e na hora da morte.

De fato, nos momentos dramáticos e sofridos da vida, aquelas verdades do catecismo, aprendidas em quase toda escola pública ou privada (naquele tempo em que eram raros os pais católicos – e sobretudo as mães – que ignorassem ou desprezassem as verdades e os valores cristãos; e em que os “professores de religião” não semeavam descrença e erros); nessas horas da crise, dizia, as verdades respiradas “no ar”, guardadas e enraizadas inconscientemente no fundo do coração, emergiam, como escada de corda que dava ao náufrago o acesso à ponte de Cristo, e que lhe permitia assim sair facilmente dos podres do rio, atravessá-lo e chegar até as alturas da Verdade e do Bem.

Verdade e “ventos de doutrina”

Hoje isso não se dá mais. Com isso não se pode contar. A situação atual (não se trata de lamentos saudosistas, mas de sentir o tamanho da nossa responsabilidade) é exatamente a contrária, tal como a descrevia o cardeal Ratzinger, em 18 de abril de 2005, na homilia da Missa inaugural do Conclave que iria elegê-lo como o Papa Bento XVI. Citando e comentando um texto de São Paulo, que acabava de ser lido nessa Missa, dizia:

«Em que consiste ser crianças (imaturas) na fé? Responde São Paulo: significa ser batidos pelas ondas e levados ao sabor de qualquer vento de doutrina… (Ef 4, 14). Uma descrição muito atual. Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantos modos de pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi não raro agitada por estas ondas – lançada dum extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até ao ponto de chegar à libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante.

»Todos os dias nascem novas seitas e cumpre-se assim o que São Paulo disse sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é frequentemente catalogado como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio “eu” e os seus apetites.
»Nós, pelo contrário, temos um outro critério: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É Ele a medida do verdadeiro humanismo. Não é “adulta” uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É essa amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade».

Essa realidade que descrevia o Cardeal Ratzinger é, sem dúvida, motivo mais do que suficiente para que todos – pais, mestres e pastores de almas – sintam a grave responsabilidade de se empenharem em que a luz da verdadeira doutrina – a verdade cristã por eles assimilada – brilhe e seus atos e em seus lábios com uma claridade inequívoca, precisamente porque a conhecem profundamente e a amam; então, o exemplo coerente com a doutrina, será capaz de contrabalançar e expelir para fora da vida dos jovens a agressividade da poluição moral do ambiente.

Creio que é aplicável a todos os que têm uma responsabilidade especial de dar exemplo aquilo que São João Maria Vianney, o Cura d´Ars, dizia aos sacerdotes: – «Dai-me um padre santo, e tereis um povo bom. Dai-me um padre bom, e tereis um povo morno. Dai-me um padre morno, e tereis um povo mau». Onde diz “padre”, ponha as palavras “pai”, “mãe”, “mestre”, “catequista”… E onde diz “povo”, ponha “filho”, “aluno”, “orientando”.

 

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: A força do exemplo

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