Não ser cruz dos outros

Imagem de Karina Cubillo em Pixabay

Ponto de luz: «Deveis empenhar-vos, com um empenho muito particular, em tornar a vida agradável a todos, sem nunca vos mortificardes uns aos outros» (São Josemaria, Meditação, 13-04-1954)[1].

Os nossos espinhos

Jesus disse-nos: Tome a sua cruz; mas não nos disse: Seja você a cruz dos outros.

Nunca ouviu comentar: «essa pessoa é a minha cruz»? É uma queixa frequente, ao falar do marido, da mulher, da sogra, de um filho desorientado, do chefe, de um sócio, etc. Como é óbvio, isso significa que essa pessoa torna a vida difícil pelo seu mau caráter, sua prepotência, seu desleixo, suas mentiras, suas trapalhadas. «Não há cristão que aguente», mais de uma vez ouvi essa exclamação.

A esse propósito, lembro-me de um comentário feito há muitos anos. Uma das minhas tias, pessoa excelente, casada com um tio muito querido (ambos já estão com Deus), tinha começado a se interessar pela formação espiritual e meditava o livro Caminho. Convidado a almoçar na casa deles, a tia recordou-me um ponto desse livro, o n. 174: «Não digas: essa pessoa me aborrece. – Pensa: essa pessoa me santifica», e comentou com um sorriso malicioso: «O teu tio me santifica». Todos caímos na gargalhada. Bem sabíamos do caráter simpático e afetuoso daquele homem.

É bom tomarmos consciência de que nenhum de nós deve dedicar-se a «santificar» os outros. Pelo contrário, deveríamos tornar-lhes a vida agradável com a nossa caridade, a nossa compreensão, a nossa paciência e, especialmente, com a mortificação dos defeitos que incomodam os demais [2].

Como nos obceca a nossa vaidade! Todos precisamos de limar tantos defeitos, tantos espinhos que arranham a vida dos outros, e nem os vemos nem os cortamos com a tesoura das nossas mortificações.

Não acha que será útil fazermos um pouco de exame sobre os nossos espinhos de cada dia?

Galeria de espinhos cotidianos

Apontemos apenas alguns exemplos. Nós somos cruz para os outros:

  • Com o nosso mau gênio. É muito fácil desculpar o nosso gênio e não mexer uma palha para mudá-lo. Deveríamos meditar com frequência estas palavras: «Não digas: “Eu sou assim… são coisas do meu caráter”. São coisas da tua falta de caráter… !»[3].
  • Somos cruz com a dureza das nossas palavras, que tantas vezes são espinhos verbais que espetamos nos demais:

– palavras de crítica: mania de censurar; reclamar do que os outros fazem, mesmo que o façam com boa vontade; .

– «Por que motivo – lemos em Sulco, n. 808 – entre dez maneiras de dizer “não”, hás de escolher sempre a mais antipática».

– Dar broncas desproporcionadas (a filhos, a subordinados).

– Ter a mania de discutir tudo.

– Semear comentários pessimistas nas conversas.

– Falar mal dos ausentes: mexericos, cochichos, maledicência

  • Somos cruz com a dureza dos nossos silêncios. Por exemplo:

– estar tão distraídos, que nem nos damos conta do assunto de que os outros estão falando; não contribuir em nada para tornar as conversas mais animadas e agradáveis.

– calar-nos para demonstrar grosseiramente o nosso desinteresse.

– fazer cara de vítima silenciosa quando padecemos algum mal, alguma contrariedade: ar soturno, cara triste, olhar de ovelha degolada. Deveríamos lembrar-nos do que diz Jesus sobre a penitência: Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio como fazem os hipócritas… Quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, para que os homens não percebam que estás jejuando (Mt 6,16-17).

  • Enfim, somos cruz prejudicando o próximo com as nossas omissões. Quantas omissões não há (diárias, às vezes contínuas), que atrapalham, prejudicam ou irritam os outros.

Nessa matéria, a lista dos «espinhos» com os quais machucamos os demais por omissão pode ser muito longa: falta das ajudas que poderíamos (que deveríamos) prestar em casa e no trabalho; egoísmo que nos leva a não ligar  para as necessidades urgentes dos pobres e doentes, ou para a necessária – cada dia mais! – formação religiosa de todos, especialmente dos filhos.  Alguns desses pontos serão repisados ao meditarmos sobre o cotidiano da família.

Não acha que têm muita razão estas palavras: «Onde não há mortificação não há virtude»[4].

Sacrificar-nos uns pelos outros

O contrário de mortificar-nos uns aos outros é sacrificar-nos uns pelos outros. Este é um contínuo ensinamento de Cristo – basta lembrar a parábola do bom samaritano: Lc 10,29-37 –, um espírito que são Paulo resume com uma expressão clara: Carregai o peso uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo (Gl 6,2).

São Josemaria não se cansava de repisar esse traço fundamental do espírito cristão: «Diga cada um a si mesmo: vou incomodar-me um pouco com todo o gosto, para tornar mais amável o caminho dos outros»[5].

Como é que nos damos, que nos “dedicamos” aos demais? Não pensemos que já estamos fazendo o que devemos. Tenhamos sempre presente que Cristo deu a vida por nós, e continua a dá-la, sobretudo na Eucaristia. Ele pede-nos mais.

Nunca esqueci palavras de são Josemaria que anotei na minha agenda, nos anos em que pude conviver com ele, concretamente em 1954: «Dar-se aos demais é de tal eficácia, que Deus o premia com uma humildade cheia de alegria».

É tão bom descobrir isso: que dar-se aos outros, em casa e fora de casa, facilita o esquecimento de nós mesmos – evita o jogo do egoísmo, tão voraz –, e se traduz em paz, simplicidade e alegria para todos: para nós e para os demais.

Podemos encerrar este capítulo com as seguintes reflexões do santo do cotidiano:

« Quantas mães conheceste tu como protagonistas de um ato heroico, extraordinário? Poucas, muito poucas. E, no entanto, mães heroicas, verdadeiramente heroicas, que não aparecem como figuras de nada espetacular, que nunca serão notícia – como se diz – tu e eu conhecemos muitas: vivem negando-se a todas as horas, cerceando com alegria os seus próprios gestos e inclinações, o seu tempo, as suas possibilidades de afirmação ou de êxito, para atapetar de felicidade os dias de seus filhos»[6].

Fonte: Padre Francisco Faus – Capítulo do nosso livro Deus na vida cotidiana

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[1] Citado em: Álvaro del Portillo, Caminhar com Jesus, Quadrante 2016, pág. 137

[2] Cf. o nosso livro Tornar a vida amável, Ed. Cultor de Livros 2015

[3] Caminho, n. 4

[4] Caminho, n. 180

[5] Cf. Álvaro del Portillo, obra citada, pág. 137

[6] Amigos de Deus, n.134

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