Mergulhar no Mistério de Deus

Foto: Tengyart / Unsplash

Dom Eurico dos Santos Veloso
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora (MG)

 

A liturgia do 3º Domingo da Quaresma dá-nos conta da eterna preocupação de Deus em conduzir os homens ao encontro da vida nova. Nesse sentido, a Palavra de Deus que nos é proposta apresenta sugestões diversas de conversão e de renovação.

Na primeira leitura(Ex 20,1-17), Deus oferece-nos um conjunto de indicações (“mandamentos”) que devem balizar a nossa caminhada pela vida. São indicações que dizem respeito às duas dimensões fundamentais da nossa existência: a nossa relação com Deus e a nossa relação com os irmãos. Oito vezes aparece o nome de Deus neste texto do livro do Êxodo. Em cindo delas, vem ligado à expressão “teu Deus”. Eis a Aliança com Moisés no Sinai(Ex 19,1); evento marcante e direcionador da história do povo. Aquele mesmo povo que tem o Senhor por seu Deus. Em nosso caminho pela Quaresma, esse texto é central: dois domingos antes e dois domingos depois dele. Nos dois anteriores, Aliança com Noé e com Abraão; nos que se seguirão: com os profetas. O texto recorda o que é próprio do homem e como deve agir para com os outros(teu próximo) em sintonia com o Senhor.

Na segunda leitura(1Cor 1,22-25), o apóstolo São Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus. É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está na lógica da cruz – isto é, no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos. O fundamento da pregação de São Paulo e da Igreja é Cristo crucificado e ressuscitado. Em Cristo, a cruz se tornou sabedoria de Deus, sinal de seu poder e caminho de salvação. Os sinais esperados pelos judeus e a sabedoria procurada pelos gregos não servem para compreender a força paradoxal da cruz.

No Evangelho(Jo 2,13-25), Jesus apresenta-Se como o “Novo Templo” onde Deus Se revela aos homens e lhes oferece o seu amor. Convida-nos a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar. São João, por duas vezes, menciona a Páscoa(Jo 2,13.23). Ressalta, no entanto, que é a festa dos judeus; depois, mostra Jesus aludindo à sua própria Páscoa(Jo 2,19), o que não é compreendido pelos seus interlocutores. O tema do crer, muito caro a João, ocorre por três vezes neste pequeno texto(Jo 2,22.12.24).  Na última vez, de modo negativo: Jesus não cria neles. Jesus, ao chegar a Jerusalém, constata o desvio de função a que o templo havia se submetido e se revolta contra o comércio em seu interior, que explorava principalmente o povo simples(as pombas vendidas eram a oferta dos pobres). Com essa atitude e a discussão com os judeus, Jesus mostra que o verdadeiro templo, dali em diante, é ele mesmo e também cada ser humano, que merece todo respeito e veneração.

Para nos prepararmos para a Páscoa, precisamos aprender bem o que significa crer em Deus. É esta a mensagem (central) da Quaresma: mergulhar no Mistério de Deus para conduzir, a partir dessa experiência, outros para o Mistério.

Fonte: CNBB

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