Educação Católica: fundamento bíblico, a contribuição dos profetas (Parte 7)

Por Dom Antônio de Assis Ribeiro
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém/PA

 

Introdução

Foi muito significativa a contribuição dos profetas para a saúde religiosa, moral e política do povo de Israel. Eles foram profundamente sensíveis aos temas sociais; não só denunciaram problemas, mas foram propositivos nos ensinamentos, alertando, inspirando e educando o povo à superação dos problemas.

O fio condutor e referência de confronto proposto para o povo em todos os contextos era a Aliança do Amor de Deus para com o povo. Para todos os profetas “amor com amor se paga!”, mas nem sempre o povo foi capaz de viver esse compromisso de reciprocidade (cf. Baruc, 1-5). Por isso a palavra educativa dos profetas está nessa perspectiva de educar o povo para a fidelidade a Deus através da prática das virtudes.

Esta breve apresentação é simplesmente uma pequena amostra da densidade educativa dos ensinamentos dos profetas. Apesar da diversidade de contextos históricos e das áreas de atuação, a postura educativa deles foi sempre provocante. Por isso podemos afirmar que o profeta é educador, porque movido por nobres ideias e, alimentado pela esperança, estimula novas atitudes e sonha com a transformação da realidade.

  1. Educar para coerência entre a liturgia e a vida

Essa é uma das mais significativas insistências do profeta Isaías. Diz o profeta: “quando vocês estão jejuando, só cuidam dos próprios interesses e continuam explorando quem trabalha para vocês. Vejam! Vocês jejuam entre rixas e discussões, dando socos sem piedade. Não é jejuando dessa forma que farão chegar lá em cima a voz de vocês. O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58,4.6-7).

  1. Educar para o direito e a justiça

Vivendo num mundo marcado pela violência da qual também ele foi vítima, o profeta Jeremias educa as autoridades dizendo: “pratiquem o direito e a justiça. Libertem o oprimido da mão do opressor; não tratem com violência, nem oprimam o imigrante, o órfão e a viúva; não derramem sangue inocente neste lugar” (Jr 22,2-3). “Ai daquele que constrói a sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito, que faz o próximo trabalhar por nada, sem dar-lhe o pagamento” (Jr 22,13).

  1. Educar para o senso crítico e sinceridade

O profeta Jeremias foi também muito sensível às questões religiosas, observou em seu tempo muitos falsos profetas e sacerdotes interesseiros que os chamava de “vendedores de ilusões”. Preocupado com o povo para que não se deixassem enganar dizia: “Não dêem atenção às palavras dos profetas que profetizam para vocês. Eles enganam vocês, a visão que eles anunciam é fruto da imaginação, e jamais saiu da boca de Javé” (Jer 23,16). Muito sensíveis à dimensão religiosa também foram os profetas Malaquias e Zacarias. Malaquias acusou o povo e a negligência sacerdotal e os educou para a honestidade religiosa, pois não podemos trapacear a Deus (cf. Ml 1,12-14;3,6-9). Na perspectiva desses profetas a fé deve ser educada para a retidão, pois há uma íntima relação entre ética e vida religiosa. Não se pode cultuar a Verdade enganando a si mesmo e aos outros.

  1. Educar para a humildade e a obediência

Essa é uma significativa sensibilidade do profeta Ezequiel que, estando na casa de um oleiro e observando o seu trabalho com o barro dando forma aos objetos, questiona o povo: “Por acaso será que não posso fazer com vocês, ó casa de Israel, da mesma forma como agiu esse oleiro? – oráculo de Javé. Como barro nas mãos do oleiro, assim estão vocês em minhas mãos, ó casa de Israel” (Ez 18,6). O processo de formação que percorremos vai moldando as nossas atitudes e assim crescemos nas virtudes. Por isso precisamos nos educar para obediência tanto a Deus quanto às exigências civis.

  1. Educar para liberdade e responsabilidade

A sensibilidade educativa do profeta Ezequiel nos leva à convicção de que cada um é responsável pela própria história com suas múltiplas escolhas. O profeta afirma a existência da nossa liberdade e da responsabilidade. Havia entre os Israelitas um provérbio que dizia que se os pais comessem uvas verdes os filhos nasceriam com a boca defeituosa (cf. Ez 18,2-3). Todavia o profeta contestou esse modo de pensar. O erro dos pais não gera pena para os filhos, cada um deve ser livre e responsável por seus atos (cf. Ez 18,1-18). “O indivíduo que age de acordo com os meus estatutos, que guarda as minhas normas, praticando corretamente a verdade, esse indivíduo é justo, e certamente permanecerá vivo!” (Ez 18,9).

  1. Educar para a corresponsabilidade comunitária

Após desenvolver a doutrina da responsabilidade individual o profeta Ezequiel também apresenta ao povo a necessidade da corresponsabilidade comunitária. Cada indivíduo na comunidade, além de cuidar de si mesmo da melhor maneira possível fazendo o bem e evitando o mal, é chamado também a cuidar dos outros e ajudá-los para que não caiam no mal. Diz o profeta: “se você não avisa o injusto para que mude de comportamento, o injusto morrerá por causa de sua própria culpa, mas é a você que eu pedirei contas do sangue dele. Ao contrário, se você prevenir o injusto para que ele mude de comportamento, e ele não mudar, ele morrerá por causa de sua própria culpa, mas você terá salva a sua própria vida» (Ez 33,8-9). A sensibilidade comunitária visa prevenir o mal.

  1. Educar para a partilha e solidariedade

O profeta Elias, fugindo do Rei Acab que queria matá-lo, recebeu a Palavra de Deus dizendo-lhe que deveria ir à cidade de Sarepta onde seria alimentado por uma pobre viúva. Chegando lá, encontrou uma senhora muito pobre com seu filhinho; mas além de pobre, era pessimista, egoísta e estava fechada a qualquer forma de partilha do pouco alimento que tinha. Negando-se a compartilhar o seu alimento com o profeta, este a educa a ser generosa confiando na providência Divina. A mulher foi convencida e fez o que Elias tinha mandado. E comeram, tanto ele como também ela e o filho, durante muito tempo. A vasilha de farinha não se esvaziou e a jarra de azeite não se esgotou (cf. 1Re 17,7-16). Também o profeta Zacarias, refletindo sobre a importância do dízimo convoca o povo a dar a própria contribuição para que nada faltasse na Casa do Senhor (cf. Zc 3,6-12). Apesar do sofrimento, mas com o povo arrependido no exílio da Babilônia, o profeta Baruc mobiliza uma campanha em prol da ajuda dos irmãos judeus que tinham ficado em Jerusalém (cf. Br 1,1-12).

  1. Educar para a honestidade

O profeta Amós, concentrou o seu olhar sobre a questão da justiça social. Observando a injustiça dos governantes declara a necessidade de mudanças de atitudes “porque esmagam o fraco, cobrando dele o imposto do trigo, eles poderão construir casas de pedras lavradas, mas nelas jamais irão morar; poderão plantar vinhas de ótima qualidade, mas do seu vinho não beberão” (Am 5,11-12). Vendo a injustiça nos tribunais chama os juízes à conversão: “Convertam-se! Procurem o bem e não o mal; então vocês viverão. Quem sabe, assim – como vocês dizem – Javé, Deus dos exércitos, estará com vocês. Odeiem o mal e amem o bem; restabeleçam o direito no tribunal!” (Am 5,13-15). Os ricos e opressores são acusados e educados para a prática da justiça (cf. Am 5,4-8).

  1. A educação como estratégia de dominação

No livro do profeta Daniel temos uma concepção de educação como instrumento de promoção da dominação. Nabucodonosor, rei da Babilônia, domina Jerusalém, se apossa dos seus bens e investe na promoção de uma cultura dominadora através da educação dos jovens. Os jovens selecionados deveriam ser preparados durante três anos e depois passariam a servir aos interesses do rei (cf. Dn 1,3-7).

  1. Educar para a intimidade com Deus

O profeta Oseias chama a atenção do povo para a reflexão e a experiência da misericórdia e a ternura divina. Segundo o profeta Deus não é alheio aos sofrimentos humanos (cf. Os 6,1-2). Mas é necessário que haja esforço pessoal para conhecer a Deus (cf. Os 6,3), pois o que ele quer é o amor e não sacrifícios, o conhecimento da sua ternura, mais do que holocaustos (cf. Os 6,6).

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Qual dessas perspectivas de educação lhe chamou a atenção?
  2. Essas preocupações proféticas são importantes ainda hoje?
  3. Quando o educador pode assumir a postura de “vendedor de ilusões”?

Fonte: CNBB Norte 2

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui