Chamados à conversão

Imagem de Luis Felipe Tun em Cathopic

Por Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém/PA

 

O ritmo da Liturgia da Palavra neste Tempo Quaresmal nos faz encontrar Moisés, na experiência feita com o Senhor (Ex 3,1-8a.13-15). Vocação e Missão, tarefa assumida pelo chamado de Deus! Dele se sabe muitas coisas, da forma como a Bíblia apresenta as pessoas, em suas qualidades e também seus defeitos. O Livro do Deuteronômio, ao descrever sua morte (Dt 34,10-12), assim se expressa: “Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor tratasse face a face, nem quanto aos sinais e prodígios que o Senhor lhe mandou fazer no Egito, contra o Faraó, seus servidores e o país inteiro, nem quanto à mão poderosa e a tantos e tão terríveis prodígios que Moisés fez à vista de todo o Israel”. O Senhor o tratou como amigo, confiou-lhe suas leis, abaixou-se a ponto de ser quase provocado por ele ao ciúme (Cf. Ex 32,11-14), cuja história tinha sido feita também de muitos problemas e até a morte de um egípcio. Este homem, junto com o povo por ele conduzido, passou pelas lições do deserto, caminho longo, cheio de provações. Sabemos que muitos fatos se tornaram símbolos para nós, a fim de não desejarmos coisas más, como muitos desejaram, e foram escritas como advertência para nós, aos quais chegou o fim dos tempos. Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair (Cf 1 Cor 10,1-6.10-12).

No correr dos séculos, Deus continuou a falar com seu povo, e o faz também hoje, para que todos nós encontremos seus apelos à mudança de vida, conversão do coração. Se prestarmos atenção, Deus nos fala pela Sagrada Escritura, permanente fonte de novidade e apelo à conversão. É uma graça especial participar da Missa Dominical e ouvir, com a Comunidade reunida, a proclamação da Palavra do Antigo e do Novo Testamento. Deus nos fala através da natureza tão bela, ele que viu, ao final da criação, que tudo era muito bom! (Cf. Gn 1,31). Seus apelos chegam a nós pelas pessoas e suas situações alegres ou tristes. Deus nos fala através dos acontecimentos da história.

As notícias que nos chegam pelos Meios de Comunicação e pelas tantas Redes Sociais trazem consigo mensagens positivamente provocantes, mesmo quanto reportam fatos negativos. O Evangelho de São Lucas (Lc 13,1-9) nos oferece dois fatos comentados por Jesus, portadores de um convite à conversão. Corriam notícias sobre galileus que tinham sido mortos por ordem de Pilatos e também o fato de uma torre ter caído sobre algumas pessoas. Jesus convida a tirar uma lição dos acontecimentos, provocando a resposta da conversão.

A Igreja aprendeu e procura praticar um método de reflexão sobre a vida, ao lado de outros modos, com três verbos: ver, julgar e agir. Façamos o exemplo da guerra em curso no Leste Europeu. Não é nossa cidade, nem nosso país, e alguém pode passar adiante, como o Senhor contou na parábola do Bom Samaritano. Não só pelas consequências já vistas ou que se seguirão quanto a preços e outras situações sociais, mas pelo risco da indiferença, a situação é muito grave. Cristãos aprendem a ver os fatos, buscar com sinceridade as explicações possíveis, com suas causas e consequências. Depois olham ao seu redor, para identificar situações igualmente provocantes. E aqui, nosso olhar se volta para a nossa violência urbana de cada dia, a exploração dos mais pobres, a devastação e destruição de nosso meio ambiente. É o ver!

Parar nas situações negativas não é próprio da nossa fé! O segundo passo se chama julgar. Só que existe uma diferença! Não se trata de um julgamento humano e limitado. Quem ilumina o julgar é a Palavra de Deus. E o Evangelho de São Lucas nos faz dar este passo (Lc 13,1-9), com expressões de grande significado: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”. Depois, “Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto”. Os fatos trazem consigo o que Deus pensa a respeito deles e a nosso respeito! Deus quer a nossa mudança de mentalidade e de rumo. Permitamo-nos uma pergunta a respeito da situação do mundo. Se alguém pensa que Deus castiga, não é necessário! Quem edifica o castigo somos nós mesmos, com a torrente de relativismo e indiferentismo, a pouca seriedade no seguimento de Jesus Cristo. O que estoura aqui e ali, com os escândalos, a criminalidade e a violência urbana e rural, tudo foi bem plantado por gerações e pela nossa geração. Trata-se agora de virar o jogo, a favor do Evangelho e da Vida!

Terceiro passo é o agir. Aproveitadas as lições advindas dos fatos e a luz da Palavra de Deus, começar de novo, ter a capacidade de agir de forma diferente. São bonitos e ao mesmo tempo exigentes os passos a serem dados. Justamente o que fez o Bom Samaritano, que é o próprio Jesus, pede que olhemos em torno a nós e em nosso ambiente. Superar a indiferença, fazer o que estiver ao nosso alcance pelo bem dos outros, a dignidade humana e a paz social. Evitar a propagação de notícias falsas e de notícias negativas. Uma bela propaganda do bem existente entre nós já pode ajudar, como expressão de conversão. E a Igreja nos pede, usando uma palavra que muita gente vai entendendo pouco a pouco, para caminhar juntos, em sinodalidade.

O agir pede ainda de todos nós o espírito missionário, com a disposição para ir ao encontro dos outros. Nossas Paróquias e Áreas Missionárias, na Arquidiocese de Belém, estão se exercitando na resposta ao convite do Papa para que sejamos uma “Igreja em saída”, o que quer dizer assumir nossa vocação missionária, sendo instrumentos do próprio Senhor para aproximar as pessoas da Igreja e de nossas comunidades, pastorais, movimentos e serviços e, mais do que tudo, de Jesus Cristo, Senhor e Salvador.

O agir missionário haverá de fundamentar-se de modo especial no espírito de oração e na prática da oração. Sair de casa para ir à Missa no Domingo será um gesto missionário, pois cada pessoa se alimenta da Palavra e da Eucaristia para ser melhor durante a semana, na vivência da Palavra e no espírito de comunhão e de serviço ao próximo. Levar a sério os pedidos de oração que as pessoas nos fazem é converter-se à convicção de que Deus é o Senhor da história humana, e só ele pode transformar profundamente o coração das pessoas, mesmo aquelas mais endurecidas e renitentes em seu egoísmo e maldade inveterada!

Enfim, toda a nossa vida é o tempo para a conversão, que nos é dado pelo Senhor. Ninguém jogue fora esta oportunidade de vida e salvação!

Fonte: CNBB Norte 2

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