A força da contrição

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O poder das lágrimas

 

Uma conhecida lenda, que percorreu a cristandade medieval, relatada entre outros pelo rei Afonso, o Sábio, nas suas Cantigas, fala de um cavaleiro que, não suportando mais o peso das suas blasfêmias e crimes, foi procurar um sacerdote eremita para se confessar. Recebeu, como penitência, a ordem de encher de água um pequeno barril. Durante semanas e meses, tentou cumprir esse gesto, aparentemente tão simples, sem nada conseguir: mergulhava o recipiente em todos os rios e córregos, achegava-o a todas as fontes, mas o baldezinho ficava vazio. Até que um dia se sentou, voltou a pensar na sua má vida e em Deus, no amor de Nosso Senhor crucificado por amor dele e na sua ingratidão. Caiu-lhe então no balde uma lágrima de verdadeira contrição, e o recipiente ficou imediatamente cheio até transbordar. Tinha cumprido a sua penitência.

Hoje, como sempre, e talvez mais do que nunca, é preciso que os cristãos aprendam de novo a derramar a lágrima que enche o barrilzinho. É tão comum o tipo de cristão satisfeito com a sua mediocridade desamorada, que não acha motivos para chorar os seus pecados! Quando muito, aceita a ideia de ser como um edifício que apenas precisa, vez por outra, de alguns pequenos retoques. E pode ser até que, com um assentimento teórico e quase nenhuma consequência prática, admita além disso o postulado de que “todos temos que melhorar”.

Falta-lhe, no entanto, a consciência viva de que, mesmo que não pensasse em outra coisa senão na sua pouca generosidade para com um Deus que tanto o ama, já teria motivos mais que suficientes para chorar e pedir perdão, para se sentir um pobre endividado, e para se apressar a pagar, com um amor que sempre há de revelar-se pequeno, o impagável amor de Deus. Se acrescentasse a isso o acúmulo dos seus pecados, negligências e infidelidades, a lágrima seria mais ardente e o propósito mais inflamado.

Onde está o nosso coração? Onde está a nossa consciência cristã? Talvez tenha ido definhando por tornar-se incapaz dessas lágrimas. E, por isso, não é de estranhar que toda uma sociedade, que ainda se chama cristã, cambaleie apoiada sobre homens que se julgam seguidores de Cristo, e, em vez de serem esteios de aço, são pontaletes de papel. Um cristianismo sem amor, um cristianismo sem ardor, é um triste arremedo do ideal divino cujo fogo Cristo veio trazer à terra (cf. Lc 12, 49). Um cristianismo que cada dia ceda um pouquinho, para se acomodar aos caprichos, às permissões e às mentiras do mundo, é uma trágica “farsa blasfema” (cf. Sulco, n. 650).

O Sacramento do perdão

Daí a importância que tem dar o devido valor a esse grande encontro das lágrimas do cristão com o Coração de Cristo, que se chama o Sacramento da Reconciliação, a Confissão.

São Josemaria Escrivá, apóstolo incansável do Sacramento do Perdão, falava da Confissão pondo em plena luz a sua grandeza e a sua divina eficácia: chamava-a “verdadeiro milagre do Amor de Deus. Neste Sacramento maravilhoso, o Senhor limpa a tua alma e te inunda de alegria e de força, para não desfaleceres no combate e para retornares sem cansaço a Deus, mesmo quando tudo te parecer estar às escuras”[1].

A autêntica perspectiva do arrependimento, vivido na Confissão sob a sua forma normal, isto é, a Confissão individual com o sacerdote – pois esta é a única forma válida em circunstâncias não excepcionais – é a perspectiva do amor que luta por avançar; que se esforça por ir e voltar a Deus, por progredir sem interrupção; que pede perdão e torna a começar; é a perspectiva do amor que sabe querer e sabe doer-se, e por isso mesmo, como diria Santo Agostinho, “não pode ficar parado”, antes é um contínuo crescimento.

«Quantas graças não temos que dar a Deus Nosso Senhor – acrescentava são Josemaria – por este Sacramento da sua misericórdia! Eu fico pasmo, comovido […]. Não vos enternece um Deus que nos purifica, que nos limpa, que nos levanta…? Recorrei à Confissão, porque não é só para perdoar os pecados graves, ou leves, ou as faltas: é também para nos fortalecer, para cumular de graça a alma e dar-nos impulso, de modo que percorramos mais depressa o caminho; para que tenhamos também maior habilidade para combater e vencer; para que nos comportemos de tal maneira que saibamos viver com virtude e detestar o pecado”[2].

Como andam errados os que julgam desnecessária a confissão frequente porque, como dizem, “só têm faltinhas leves”. Mesmo aceitando que isso seja verdade, poderíamos dizer-lhes com o autor de Caminho: “Que pena me dás enquanto não sentires dor dos teus pecados veniais! – Porque, até então, não terás começado a ter verdadeira vida interior”(Caminho, n. 330).

É neste sentido que João Paulo II, recordando um constante ensinamento da Igreja, reafirmava: «A confissão renovada periodicamente, chamada de “devoção”, sempre acompanhou na Igreja o caminho da santidade»[3]. A confissão frequente sempre acompanhou e fomentou de maneira muito direta o progresso espiritual.

Fonte: Padre Francisco Faus – adaptação de um trecho do livro Lágrimas de Cristo , lágrimas dos homens

 


[1] Amigos de Deus, n. 214

[2] Folha informativa, n. 5, p. 4

[3] Alocução, 30/01/1981

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