Em seu primeiro discurso no país ibérico, Leão XIV encontrou-se com as autoridades, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio Real de Madri. O Pontífice destacou as raízes cristãs do país, fez um apelo pela superação das polarizações e afirmou que a paz se constrói por meio da verdade, do diálogo e da educação.
A quarta Viagem Apostólica do Papa Leão XIV, teve início neste sábado 6 de junho, na Espanha. Após sua chegada a Madri, o Santo Padre dirigiu-se ao Palácio Real, onde se encontrou com o rei Felipe VI, a rainha Letizia, autoridades civis, representantes da sociedade e membros do corpo diplomático. Em seu primeiro discurso em território espanhol, o Papa apresentou uma reflexão sobre a identidade histórica do país, a busca da verdade, a necessidade da reconciliação e os desafios enfrentados pelo mundo contemporâneo.
Uma história marcada pelo Evangelho
Ao iniciar sua intervenção, Leão XIV agradeceu o convite para visitar a Espanha e recordou a antiga tradição que associa a evangelização da Península Ibérica ao apóstolo São Tiago Maior. Segundo o Pontífice, a ligação entre a fé cristã e a história espanhola moldou profundamente a cultura do país e continua sendo uma fonte de esperança diante dos desafios atuais.
O Papa também destacou a riqueza das manifestações da religiosidade popular, das irmandades, das associações de caridade e do vasto patrimônio artístico e musical espanhol, frutos do encontro entre o Evangelho e a vida do povo. “Com o patrimônio artístico musical e as múltiplas irmandades e associações de caráter caritativo, dão testemunho do fecundo encontro entre Jesus Cristo e o vosso povo. Sois um povo cheio de paixão, que ama a vida e o manifesta!”
A cultura do encontro
Leão XIV explicou que sua visita deseja fortalecer a fidelidade ao Evangelho e favorecer uma cooperação mais profunda entre os diversos setores da sociedade espanhola. Nesse contexto, destacou uma das principais lições da história do país. “Com efeito, a vossa própria história sugere que não é a cultura do confronto, mas a do encontro, que gera estabilidade e prosperidade.”
O Santo Padre recordou ainda um ensinamento do Papa Francisco sobre a necessidade de manter um diálogo constante, entre as ideias e a realidade concreta. Segundo ele, a verdade nunca pode ser reduzida a construções ideológicas ou narrativas abstratas, mas deve ser procurada com humildade e abertura. “A verdade é sempre maior do que nós e, por isso, surpreende-nos e atrai-nos para caminhos de purificação e reconciliação.”
São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila
Ao refletir sobre os desafios do tempo presente, o Papa evocou duas das maiores figuras espirituais da Espanha: São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. Ambos, afirmou, ensinaram a descobrir a presença de Deus justamente nos momentos de escuridão e incerteza. Referindo-se ao Ano Jubilar dedicado a São João da Cruz, Leão XIV observou que muitos homens e mulheres vivem hoje a experiência da desorientação diante das rápidas transformações sociais, culturais e tecnológicas. Por isso, disse, é necessário aprender a reconhecer a luz que surge mesmo em meio às noites da história.
“Também hoje, o que mais nos assusta, provocando em muitos a escuridão da razão e a violência das emoções, é o desconhecido, diante do qual pode prevalecer a desorientação, a sensação de já não termos mapas.”
Um mundo que clama por paz
O Pontífice afirmou que, apesar dos conflitos e tensões que marcam o cenário internacional, existe um profundo desejo de paz no coração da humanidade.
“A nossa época, que aparentemente se vê abalada por terríveis desequilíbrios e conflitos, no seu íntimo clama por paz, por um novo conhecimento da pessoa humana e da sua dignidade inviolável, pela civilização do amor.”
Segundo o Papa, a construção dessa paz passa pela valorização da liberdade religiosa e de consciência, pela promoção da cultura e pela formação de pessoas capazes de cultivar a interioridade e a busca sincera da verdade.
Contra as polarizações
Leão XIV manifestou preocupação com o crescimento das divisões sociais e políticas que marcam muitas sociedades contemporâneas. Para ele, a tentação de obter consenso alimentando conflitos e antagonismos representa uma ameaça à dignidade humana e à convivência pacífica, e lançou um apelo direto aos espanhóis:
“Hoje, a tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações parece crescer, em vez de diminuir; a dignidade humana continua a ser violada. Convido todos, por amor à verdade, a abandonarem as narrativas divisórias e polarizadoras da vossa realidade social e da vossa história, a fim de que se passe das simplificações estéreis a uma apreciação fecunda da complexidade.”
Educação, tecnologia e responsabilidade
O Papa também dedicou parte significativa do seu discurso aos desafios trazidos pelas novas tecnologias. Segundo ele, o ambiente digital pode favorecer a difusão de preconceitos, enfraquecer o pensamento crítico e amplificar interesses que ameaçam a vida e a dignidade humana. Diante desse cenário, defendeu uma mudança de prioridades nos investimentos públicos e privados:
“É necessário, sobretudo por parte de quem tem responsabilidades econômicas, políticas e institucionais dar um salto qualitativo, uma mudança de rumo nos investimentos destinados à escola, à universidade e à pesquisa, às comunidades locais e à sociedade civil.”
O Santo Padre ressaltou ainda que a verdadeira segurança não nasce da lógica dos muros e das armas, mas da capacidade de caminhar juntos. “A segurança, que pensamos, com demasiada frequência, provir das armas e dos muros, amadurece, pelo contrário, quando se aprende a avançar com o outro, a crescer juntos, ombro a ombro.”
A contribuição da Espanha para a Europa e para o mundo
Ao recordar momentos históricos de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na Península Ibérica, o Papa destacou cidades como Toledo e Córdoba como exemplos de encontro entre culturas, religiões e saberes. Leão XIV afirmou que a Espanha possui uma vocação especial para ajudar a Europa a redescobrir sua missão de promover o diálogo e a cooperação entre os povos. Ao concluir seu discurso, agradeceu o compromisso espanhol com o direito internacional, o multilateralismo e a solidariedade.
“Encorajo a cultivar o diálogo e a amizade social também internamente, a levar em conta as perspectivas dos pobres e dos jovens ao imaginar o futuro, a harmonizar as exigências de autonomia e de unidade, e a impulsionar o processo de união europeia.”
Ao final, confiou o país à proteção divina e dirigiu uma breve invocação: “Que Deus abençoe a Espanha!”
Thulio Fonseca – Vatican News
Imagem: Papa com os monarcas espanhóis (@Vatican Media)