O amor acima de tudo e todos

Publicado em: 13-11-18


.Não raro buscamos máximas para nós e nossas vidas. E sem maiores reflexões, acabamos por impor nossos modos de pensar e enxergar o mundo aos outros. Quando isso acontece, perdemos todos. Perdemos porque eliminamos diferenças a partir de um projeto diabólico que nos divide entre “eles” e “nós”, mas em vista de uma uniformização precária. Atualmente, temos experimentado isso no Brasil, talvez como nunca antes na história desse país. Grupos conservadores tentam a todo custo impor suas máximas e enquadrar todas as pessoas dentro dessas máximas que elegeram para balizar o mundo. Trata-se de verdadeira tentativa de eliminação das diferenças e dos diferentes. Entre outras coisas, nega-se a pluralidade do nosso povo radicada desde nossas matrizes. Esse processo é muito perigoso porque a própria condição humana se dá no jogo da história e de experiências singulares, não uniformes. É urgente resistir à tentação de considerar apenas um único ponto de vista sobre a realidade multifacetada e fragmentada que nos circunda e ajudamos formar.

 

Os ensinamentos de Jesus em seu Evangelho instruíram e instruem homens e mulheres para uma sensibilidade diante da vida permitindo fazer uma leitura e interpretação dos sinais dos tempos, a fim de compreender a própria vida em face do acolhimento ou da rejeição ao projeto do Reino. A práxis profética de Jesus é bastante simbólica porque carregada do sentido que reconcilia o ser humano e todas as coisas com seu Criador. Para isso, as palavras e atitudes do Mestre subvertem a ordem de compreensão de Deus, da humanidade e do mundo criado, ao mesmo tempo em que apresenta novas possibilidades para as relações construídas. Como consequência disso, outra compreensão sobre Deus é construída, de modo que, ao pensá-lo como transcendente estamos obrigados a perceber sua condescendência, por meio da qual, então, podemos pensar Deus como o totalmente outro. A condescendência é, portanto, o movimento chave para o conhecimento do Pai de Jesus e do seu Reino. Precisamente, esse movimento de rebaixamento por própria vontade é visto já desde o Antigo Testamento, no qual Deus está sempre vindo ao seu povo para socorrê-lo ou para retomar a Aliança perdida pela infidelidade do povo. Esse rebaixamento ganha sua máxima expressão na encarnação de Jesus e na sua entrega na Cruz. Desse modo, é inútil a expressão utilizada como slogan do governo eleito nas últimas eleições: Deus acima de todos. É inútil e enganoso, caso o Deus nomeado seja aquele que foi revelado ao mundo pela vida de Jesus.

 

Pensando na esteira dessa revelação, o cristianismo pode propor uma máxima para o ser humano e seu mundo, sem o risco de cair num sistema opressor de eliminação do outro e das diferenças. Essa máxima é o amor. E o amor no sentido cristão é muito além de um sentimento. Trata-se muito mais de uma postura na vida, a partir da qual nos distanciamos de nós mesmos para estar cada vez mais próximos do outro e, nesse movimento, acabamos por estar cada vez mais próximos de nós mesmos. Essa saída de nós para o outro é o que garante toda e qualquer liberdade para ser e fazer. Só quem se desprende de suas máximas verdades é capaz de se abrir àquele que é tão diferente. Nesse sentido, só o amor resguarda as diferenças e pluralidades, dando-lhes espaço e cidadania. Por sua parte, ele elimina toda tentação diabólica de ser uma coisa precariamente uniforme. O que o amor faz é unir os diferentes, colocando-os irremediavelmente num movimento de aproximação e distanciamento que salvaguarda um e outro naquilo que são. Precisamente, por resguardar cada pessoa na sua singularidade e dignidade é que Jesus ensina a máxima do amor: “que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei” (cf. Jo 15,17). O amor é o modo como Deus se coloca abaixo de todos para promover a vida plena e digna inaugurada na práxis profética de seu Filho. E se rebaixando diante de tudo e todos, Ele nos ensina a colocar o amor acima de tudo e de todos, para que o ódio e a morte sejam combatidos e a vida valha mais que nossos discursos e esquemas de opressão.

 

 

 

Tânia da Silva Mayer (mestra e bacharela em Teologia)

Publicado originalmente na revista eletrônica Dom Total

Foto de capa: Reprodução/ Pixabay

Destaques

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Testando quantidade de cadastro

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Dia do pobre: não discursos, mas atitudes!

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O amor acima de tudo e todos

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O mundo necessita de princípios que favoreçam o diálogo


O amor acima de tudo e todos



Publicado em: 13-11-18


.Não raro buscamos máximas para nós e nossas vidas. E sem maiores reflexões, acabamos por impor nossos modos de pensar e enxergar o mundo aos outros. Quando isso acontece, perdemos todos. Perdemos porque eliminamos diferenças a partir de um projeto diabólico que nos divide entre “eles” e “nós”, mas em vista de uma uniformização precária. Atualmente, temos experimentado isso no Brasil, talvez como nunca antes na história desse país. Grupos conservadores tentam a todo custo impor suas máximas e enquadrar todas as pessoas dentro dessas máximas que elegeram para balizar o mundo. Trata-se de verdadeira tentativa de eliminação das diferenças e dos diferentes. Entre outras coisas, nega-se a pluralidade do nosso povo radicada desde nossas matrizes. Esse processo é muito perigoso porque a própria condição humana se dá no jogo da história e de experiências singulares, não uniformes. É urgente resistir à tentação de considerar apenas um único ponto de vista sobre a realidade multifacetada e fragmentada que nos circunda e ajudamos formar.

 

Os ensinamentos de Jesus em seu Evangelho instruíram e instruem homens e mulheres para uma sensibilidade diante da vida permitindo fazer uma leitura e interpretação dos sinais dos tempos, a fim de compreender a própria vida em face do acolhimento ou da rejeição ao projeto do Reino. A práxis profética de Jesus é bastante simbólica porque carregada do sentido que reconcilia o ser humano e todas as coisas com seu Criador. Para isso, as palavras e atitudes do Mestre subvertem a ordem de compreensão de Deus, da humanidade e do mundo criado, ao mesmo tempo em que apresenta novas possibilidades para as relações construídas. Como consequência disso, outra compreensão sobre Deus é construída, de modo que, ao pensá-lo como transcendente estamos obrigados a perceber sua condescendência, por meio da qual, então, podemos pensar Deus como o totalmente outro. A condescendência é, portanto, o movimento chave para o conhecimento do Pai de Jesus e do seu Reino. Precisamente, esse movimento de rebaixamento por própria vontade é visto já desde o Antigo Testamento, no qual Deus está sempre vindo ao seu povo para socorrê-lo ou para retomar a Aliança perdida pela infidelidade do povo. Esse rebaixamento ganha sua máxima expressão na encarnação de Jesus e na sua entrega na Cruz. Desse modo, é inútil a expressão utilizada como slogan do governo eleito nas últimas eleições: Deus acima de todos. É inútil e enganoso, caso o Deus nomeado seja aquele que foi revelado ao mundo pela vida de Jesus.

 

Pensando na esteira dessa revelação, o cristianismo pode propor uma máxima para o ser humano e seu mundo, sem o risco de cair num sistema opressor de eliminação do outro e das diferenças. Essa máxima é o amor. E o amor no sentido cristão é muito além de um sentimento. Trata-se muito mais de uma postura na vida, a partir da qual nos distanciamos de nós mesmos para estar cada vez mais próximos do outro e, nesse movimento, acabamos por estar cada vez mais próximos de nós mesmos. Essa saída de nós para o outro é o que garante toda e qualquer liberdade para ser e fazer. Só quem se desprende de suas máximas verdades é capaz de se abrir àquele que é tão diferente. Nesse sentido, só o amor resguarda as diferenças e pluralidades, dando-lhes espaço e cidadania. Por sua parte, ele elimina toda tentação diabólica de ser uma coisa precariamente uniforme. O que o amor faz é unir os diferentes, colocando-os irremediavelmente num movimento de aproximação e distanciamento que salvaguarda um e outro naquilo que são. Precisamente, por resguardar cada pessoa na sua singularidade e dignidade é que Jesus ensina a máxima do amor: “que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei” (cf. Jo 15,17). O amor é o modo como Deus se coloca abaixo de todos para promover a vida plena e digna inaugurada na práxis profética de seu Filho. E se rebaixando diante de tudo e todos, Ele nos ensina a colocar o amor acima de tudo e de todos, para que o ódio e a morte sejam combatidos e a vida valha mais que nossos discursos e esquemas de opressão.

 

 

 

Tânia da Silva Mayer (mestra e bacharela em Teologia)

Publicado originalmente na revista eletrônica Dom Total

Foto de capa: Reprodução/ Pixabay

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